O artesanato em lã ovina é uma tradição que atravessa gerações. No Rio Grande do Sul, uma das regiões que concentra o maior número de pessoas dedicadas à arte é a Campanha gaúcha, com 91 artesãos em 16 municípios, segundo levantamento realizado pela Emater/RS-Ascar entre 2024 e 2025.
Em Lavras do Sul, 2por exemplo, oito artesãos mantêm viva a cultura, unindo o saber das mãos, o valor da lã e o orgulho de pertencer a uma região onde a Ovinocultura é símbolo de identidade. Com mais de quatro décadas de fundação, a Associação Tecelagem Lavrense está entre as iniciativas dedicadas à arte em lã.
Serley Werner é uma das integrantes mais antigas do grupo. A artesã conta que começou a lidar com a lã ainda na infância, para ajudar o pai e a avó. Anos depois, com o apoio da Emater/RS-Ascar, conseguiu organizar melhor a produção e inclusive auxiliar outras pessoas. “Hoje eu sou instrutora e cada dia eu tenho mais esperança de melhorar esse trabalho, ensinar mais pessoas”, conta.
A também artesã Teresinha de Jesus Pio Dutra Marques ingressou na associação a convite da Emater/RS-Ascar. Para ela, o artesanato é uma fonte de renda, além de uma forma de conquistar autonomia e desenvolver parcerias com outras mulheres. “É gratificante, porque a gente consegue ter uma renda, consegue ter sonhos, é incrível. Ganhei muita autonomia”, destaca.
O trabalho realizado por iniciativas como a Tecelagem Lavrense contribui ainda para dar um novo significado à lã. Nas mãos das artesãs, o que antes tinha pouco valor comercial se transforma em matéria-prima para o artesanato, gerando renda, identidade e novas oportunidades no meio rural. “Um quilo de lã suja, que valeria R$ 2,00, eu beneficio e consigo tirar R$ 1.500,00. Eu pago a minha faculdade com o meu trabalho com a lã. Isso foi um sonho realizado, que custei para alcançar”, celebra Andressa dos Santos Soares, vice-presidente da associação.
Para a extensionista da Emater/RS-Ascar, Ivanir Argenta, a possibilidade de as participantes conquistarem a própria renda e ter poder de decisão sobre as finanças colabora para a permanência no campo. “Esse empoderamento que se dá para as mulheres é muito importante para elas permanecerem no meio rural, gerando renda para suas propriedades”, salienta.
Conheça o trabalho da Tecelagem Lavrense no perfil da associação no Instagram @tecelagemlavrense.
Do campo aos novelos
Caçapava do Sul é outro município da Campanha com tradição na ovinocultura. É lá que está localizada a Fazenda Santa Marta, onde o trabalho começa no campo e chega até a novelaria, onde a lã se transforma em renda e arte.
O casal Marta Teixeira e Jorge Dias trabalha com um rebanho de cerca de 300 ovinos da raça Ideal, selecionados a partir do melhoramento genético e do controle rigoroso da qualidade da lã. Através da micronagem, que mede a finura da fibra da lã e determina o valor do produto, conseguem garantir uma lã bem valorizada no mercado. Cerca de 85% da produção é dedicada à exportação, principalmente para o Uruguai. O restante é processado na propriedade, dando origem aos fios da Novelaria Santa Marta.
Um dos diferenciais do negócio é o tingimento natural, feito com plantas nativas encontradas na propriedade. O processo artesanal valoriza cada etapa e transforma o fio em matéria-prima para peças exclusivas. “A gente tem uma certificação de extrativismo da flora nativa para o tingimento, com um cuidado ao extrair essas plantas”, explica Marta, responsável pela novelaria. “O nosso novelo tem o selo de geoproduto, por contar uma história, um saber tradicional, que é o processamento da lã, o que também agrega valor ao produto”, completa.
A produtora rural, que também é professora no município, conta que aprendeu a amar o trabalho artesanal com a lã - um amor que é entregue junto com o produto aos clientes. “Quem compra um novelo também está levando um pedacinho de mim”, afirma.
Descubra mais sobre o processo de produção da propriedade no Instagram: @novelaria_stamarta.
Cultura que se espalha pelo Estado
Apesar da tradição em transformar a lã ovina em peças artesanais ser mais comum na Campanha, o trabalho com a matéria-prima tem se expandido para outras cidades do Rio Grande do Sul. Este é o caso do Arteirar, grupo de Três Coroas que conta com o apoio da Emater/RS-Ascar, da Prefeitura e de outros parceiros locais.
Mesmo com o município entre os menores produtores de ovinos do Estado, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as raízes de alguns integrantes na Serra e na Campanha despertaram o interesse em transformar o material em produtos únicos. Com criatividade e técnica, eles produzem peças de vestuário, acessórios e itens de decoração.
Atualmente o Arteirar reúne 11 artesãos, que encontram na atividade uma forma de manter vivas as tradições e dar novo significado à lã ovina. “Para mim, isso representa os valores gaúchos da nossa terra. Me criei nesse meio. Lá se fazia o baixeiro, pois a gente usava muito os cavalos, era necessário, assim como as cobertas de lã, tudo no tear. A mãe fazia e eu acompanhava. Participei dessa época. Então representa muito família, pois fez parte da minha infância”, lembra o artesão Leandro Ferreira Pereira.
Assim como a Tecelagem Lavrense e a Novelaria Santa Marta, o Arteirar oportuniza a geração de renda e a valorização de raízes, mas principalmente colabora para a autoestima dos participantes e para fortalecer os laços entre os artesãos e suas famílias. “Esse é um espaço de aconchego, para atender e suprir necessidades, principalmente emocionais. E a arte, para mim, tem esse viés de possibilitar às pessoas, naquele momento, não sofrer tanto com a sua dor, mas ver possibilidades através dela”, avalia a artesã Márcia Hugentobler Huff.
Uma das pioneiras do grupo, Teresinha Padilha Rech, salienta que o Arteirar está aberto para outras pessoas que queiram aprender a técnica: uma forma de passar os aprendizados adiante e manter viva a tradição. “Estamos aqui para ensinar. Não sabemos tudo, não dominamos todas as técnicas, mas aquilo que a gente consegue passar é muito prazeroso”, complementa.
Com muita alegria e dedicação, o grupo contagia quem participa e quem apoia. O extensionista da Emater/RS-Ascar em Três Coroas, João Alberto Guerra da Rocha, destaca como o projeto impacta em sua vida e trabalho. “A disponibilidade desses homens e mulheres em não só fazer, mas ensinar a fazer, em trocar experiências, me dá ânimo para continuar trabalhando e desenvolvendo as políticas públicas no município”, assegura.
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