As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024 deixaram 906 mil imóveis sem abastecimento de água e colocaram à prova uma das infraestruturas mais essenciais para a população: o saneamento. A dimensão da crise levou a Corsan a rever prioridades, acelerar investimentos e incorporar a adaptação climática como eixo permanente de sua estratégia operacional.
A resposta a essa nova realidade começa a ganhar escala com um Plano de Resiliência Climática de R$ 1,88 bilhão, que prevê intervenções em 55 municípios e busca reduzir a vulnerabilidade dos sistemas de abastecimento e esgotamento sanitário diante de enchentes, estiagens e outros eventos extremos. Uma primeira etapa do programa, com investimentos de R$ 350 milhões, já está em execução.
A iniciativa surge em um momento em que os impactos das mudanças climáticas passaram a influenciar diretamente a gestão da infraestrutura urbana. No saneamento, o desafio deixou de ser apenas ampliar a cobertura dos serviços. A questão agora é garantir que eles continuem operando mesmo diante de situações críticas.
Foi esse cenário que emergiu durante a tragédia de 2024. Com unidades operacionais afetadas pela cheia, estruturas inundadas e acessos interrompidos, a companhia precisou organizar uma operação de emergência para restabelecer o fornecimento de água em diferentes regiões do Estado.
Segundo a empresa, a mobilização começou em menos de seis horas. A força-tarefa envolveu 120 geradores, bombas anfíbias e mais de 1.200 viagens de caminhões-pipa para minimizar os efeitos da interrupção dos serviços essenciais.
A experiência se transformou em referência para uma revisão mais ampla dos mecanismos de prevenção e resposta.
“Não podemos controlar o clima, mas podemos nos preparar e agir rapidamente sobre os efeitos que ele provoca. Cada evento nos traz aprendizados que precisam se transformar em ações concretas. Nosso compromisso é antecipar riscos, proteger as pessoas e preparar os sistemas para que as cidades tenham cada vez mais segurança diante dos desafios climáticos”, afirma a diretora-presidente da Corsan, Samanta Takimi.
A partir desse aprendizado, monitoramento permanente, inspeções preventivas e planos de contingência ganharam protagonismo dentro da operação. A estratégia busca identificar riscos com antecedência, permitindo a mobilização prévia de equipes e equipamentos sempre que alertas meteorológicos indicarem a possibilidade de ocorrências severas.
A atuação recente na Barragem Arroio São Luiz, em São Marcos, ilustra essa mudança de abordagem. Após fortes chuvas, uma inspeção identificou fissuras na estrutura e levou ao acionamento do Plano de Ação de Emergência. Especialistas, mergulhadores, bombas e geradores foram mobilizados para reduzir o nível da água, avaliar as condições da barragem e iniciar os reparos necessários.
Ao mesmo tempo, medidas foram adotadas para preservar o abastecimento da população durante os trabalhos. O episódio reforçou a importância de combinar monitoramento constante, capacidade técnica e rapidez na tomada de decisões.
Os investimentos previstos vão além das ações emergenciais. O plano contempla obras em captações, barragens, adutoras, estações de bombeamento e estruturas de contingência em 18 estações de tratamento de água. Além disso, 91 unidades operacionais atingidas pelas enchentes passaram por recuperação ou realocação.
Outra frente considerada estratégica é a ampliação da redundância operacional. A proposta é criar alternativas capazes de manter o funcionamento dos sistemas mesmo quando parte da infraestrutura sofre interrupções. Nesse contexto, a diversificação das fontes de abastecimento, incluindo a utilização de poços profundos, passou a integrar o planejamento.
A adaptação ocorre paralelamente a outro desafio de grande porte. Até 2033, as metas do Marco Legal do Saneamento estabelecem atendimento de 99% da população com água tratada e de 90% com coleta e tratamento de esgoto.
Para a Corsan, expansão dos serviços e preparação para eventos extremos tornaram-se objetivos inseparáveis.
“Universalizar o saneamento não é apenas levar água tratada e esgoto a mais pessoas. É garantir que esses serviços tenham continuidade e que a infraestrutura esteja preparada para os desafios que virão. Estamos investindo para transformar o saneamento gaúcho, mas também para proteger essa transformação. É uma responsabilidade com as pessoas, com as cidades e com as próximas gerações”, destaca Samanta.
As enchentes de 2024 transformaram a discussão sobre saneamento no Rio Grande do Sul. Se antes a prioridade estava concentrada na ampliação da cobertura, a experiência recente mostrou que a segurança dos sistemas passou a ser condição essencial. Em um cenário de eventos climáticos mais frequentes e intensos, garantir o acesso à água depende cada vez mais da capacidade de antecipar riscos e manter a infraestrutura operando quando ela é mais necessária. (Por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)
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